Havia dias em que seu compromisso com o mundo estava reavivado.
Um carnaval fora de época e com apenas algumas pessoas. O verdadeiro carnaval.
A esta altura seu estômago queimava como brasa e uma tosse seca o acompanhava há aproximadamente duas semanas. Também estivera com a musculatura das costas lesionada. Além dos fungos que pegou no pé enquanto visitava uma ilha do litoral sul.
Interessante como intensidade e fugacidade podem ser experiências gêmeas. Muitas pessoas que não faziam mais parte da vida de Tadeu estavam ao seu lado novamente e para um reencontro que prometia muito. Embora sua preocupação inicial fosse de refletir sobre a precariedade humana limitada ao mundo programático das férias anuais de trabalho, na prática se resignou ao universo do sexo, do álcool e de outras drogas. Ainda restavam alguns dias para o fim das férias e, em mais uma terça-feira domingueira, ele acordou um pouco depressivo. Sabia que logo viriam os dias de trabalho e a volta da rotina. Também não menosprezava o efeito cumulativo dos muitos dias consecutivos bebendo.
À medida que os primeiros dias de trabalho do ano se aproximavam ele sentia a volta da culpa pelo ócio. É curioso como a adaptabilidade é uma contradição, uma lâmina de dois gumes para a humanidade, pensava ele. Sozinho no seu quarto, lendo um clássico da literatura beatnik, ele fazia anotações para mais um projeto inacabado de alguma música, conto ou poesia. O modo como algumas dores acabaram por se tornar totalmente suportáveis era algo que o intrigava. Fazia-o temer os dias "bons". Aqueles onde não há surpresas. Tão toleráveis na sua atmosfera de amigável resignação que passava e plasmava neles a normalidade característica da maioria dos dias, meses e anos.
Pensou mais uma vez sobre a rotina. Na maneira feroz e no comportamento ávido dela. Muitas vezes sentia que era devorado aos pedaços. E isso fazia dele um sobrevivente. A exemplo de um combatente semi-mutilado. Talvez por saber, secretamente, que por mais programático que possa ser o mundo há sempre o supremo momento; aquela esperança, quase uma crença, de que tudo pode ser diferente.
Pensou mais uma vez sobre a rotina. Na maneira feroz e no comportamento ávido dela. Muitas vezes sentia que era devorado aos pedaços. E isso fazia dele um sobrevivente. A exemplo de um combatente semi-mutilado. Talvez por saber, secretamente, que por mais programático que possa ser o mundo há sempre o supremo momento; aquela esperança, quase uma crença, de que tudo pode ser diferente.
Mas ele continuava, não desistia. Permaneceu vivo e buscou aproveitar ao máximo o que aqueles dias de relativa liberdade o proporcionavam. Reencontrou pessoas que há muito não via, reviveu sensações e sentimentos que pareciam conservados e guardados por alguma magia e logrou fazer do restante de suas férias um momento de produção livre.
Muitas pessoas que ele conhecia estavam próximos de uma guinada e pretendiam se mudar. Estranho como a lembrança e a saudade, as vezes, parecem atemporais. É só no momento do reencontro - quando este é possível - que há aquela surpresa ao perceber que as pessoas, tanto quanto você, também mudaram. Tadeu tomava consciência disso à medida que os dias se passavam e ele reconhecia a disciplina para o trabalho escorrendo pelo nariz, ouvido, boca e, de maneira geral, transbordando pelos orifícios daqueles que outrora pareceram estar imunes.
Mas o mundo ainda é mundo, com suas multidões de mutilados. Tão resignados com a vida-bigorna que lhes arranca membros e lágrimas. E de qual altar ou púlpito falava ele? Quem lhe dera autoridade para falar da resignação alheia quando nem mesmo reconhecia as margens do lago de conformismo no qual estava mergulhado?
Pensou nas teses da esquerda marxista. No modo como os acadêmicos julgavam os trabalhadores por se deixarem cooptar pelos sindicatos, centrais e partidos. E por renunciarem o que chamavam de "aventura histórica". Estava ele, à força de sua fraqueza de espírito, reconhecendo apenas a fraqueza do outro?
E mesmo assim não retrocedia. Não arredava o pé. Acreditava que a vida poderia ser algo mais do que prazeres imediatos. Repetia isso primeiro em voz baixa e, noutro momento, aos gritos pelo quarto que ele buscava transformar em uma espécie de escritório. Embora sentisse a solidão de arriscar contra a servidão que acometia a tudo e a todos, sentia que estava no caminho certo; e que a liberdade parece sempre ter um preço.