Não se sabe (e não importa) os
meios de dar início a estória deste homem.
Gostaria apenas de destacar, para
que aquilo que eu ainda vou contar não fique sem um ponto de partida, que tudo
começou com as neuroses de Aristides.
Ele sempre teve pequenos problemas.
Mas, como se sabe, tudo pode mudar rapidamente, e fatos isolados e sem a menor
importância começam a convergir numa mórbida combinação de resultados.
Nestes momentos, é sabido que a linha entre o
paraíso da lucidez e os campos desertos da loucura é muito tênue. Quase sempre
com transeuntes com um pé lá, outro cá. E como saber? Aristides ao menos
questionava. Embora sempre perguntasse à pessoa errada. Perguntava para si
mesmo.
Seu namorado, o obeso Alexandre,
o completava em arrogância. Fazia aquilo para se proteger. Fingia (e já chegara
a acreditar) que possuía uma beleza incontestável, apesar do estrabismo e da
corpulência. Mas Aristides gostava. Ele mesmo era bastante assim. Mais bonito,
sem dúvida.
A segunda paixão de Aristides –
depois do Alexandre – era o tabagismo. Aristides não gozava de muita saúde, não
praticava esportes e, ainda novo abusara da cocaína e de outras porcarias do
prazer. Ao menos ele não sentia culpa – e isto já sou eu que estou dizendo.
Fumava muito!
Seu modo quase obsceno de chupar
o filtro do cigarro, enfiando-o quase todo na boca, era para ele uma espécie de
performance. Passaram-se dez anos. E Aristides já não tinha 33 anos. Fumara
muito. Agonizando um câncer no estômago, secou seu corpo pálido nos braços de
Alexandre. Morreu!
Dizem – falo assim quando quero
dizer algo que não tenho coragem de assumir – que o câncer se alimenta das
raízes de amargura e das experiências de vida. Não sei. Aristides e Alexandre
pareciam ter podado as raízes depois daquela briga e da quase separação.
Demonstravam ter superado.
Mas, muita coisa acontecera nos
últimos dez anos. Não teve jeito. A rotina fertilizou a terra, deu as células
de Aristides ao câncer. Alexandre ligou para os amigos, e repetiu quase
mecanicamente a mensagem de luto.
Uma de suas amigas recentemente tocara no
assunto, contando a outro amigo que estivera fora, o caso do falecimento de
Aristides. Mas esta também não é mais a estória dele, o Aristides, e sim do
casal recém-encontrado. Tais amigos já fizeram pouco caso. A ocasião em que
tocaram no assunto demandava sexo e, a morte do pobre diabo do Aristides, se
tornara apenas o prenúncio da transa porvir. Quem tem culpa?