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segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Férias Programadas

Genivaldo acreditava que a vanguarda para uma transformação mais radical da sociedade atual seria composta de pessoas como ele. Arrogante como todo típico sagitariano. 
E vai saber se não? Pensava ele. 


Acreditava - ou começava a acreditar - que as férias programadas eram algo violentamente anti-natural, uma tendência humana incrivelmente limitante e organizada em consonância à lógica do consumo. Uma grana a mais e nós, presos a essa lógica, mas ao mesmo tempo covardes, batemos no peito com orgulho de ter feito aquelas 12 horas sem folga, ou de ter perdido o sono há meses. 
Tais pensamentos invadiram sua mente nos últimos dias. Ele andava confuso sobre como deveria formar uma opinião a respeito daquele momento de relativo e imediato conforto. 


É aqui, neste exato momento, onde acabo arrefecendo minhas críticas em troca da satisfação de necessidades de consumo e status, que começo a me transformar em mais um resignado? Indagava Genivaldo com o olhar distante. 

Certo dia, ainda nos primeiros dias das férias de um ano qualquer, Genivaldo sentiu mais profundamente esta inquietação interior. Pensou no quanto demoraria, ou pior, quais dias iria perder buscando não programá-los tal qual fazia com os dias e semanas dos outros onze meses do ano. 
Isso o deixou ainda mais inquieto e desconfiado. Pensou em como era difícil desenvolver um pensamento crítico dentro de um mecanismo que bate e assopra. Está certo que mais bate do que assopra. E ele sabia disso. Mas a sedução e o isolamento parcial o reconfortavam. Imaginava estar um pouco longe da cidade, ou melhor, mais perto do mar, sem carros e asfalto. 
Tinha dúvidas se aquilo era mesmo uma forma de libertação ou se era mais um episódio do programa anual de trabalho. 

Talvez devêssemos nos reconfortar e esquecer isto. Por que não agir como os outros? Pensava ele.
E, de repente, se lembrava de como o conhecimento é uma porta aberta e difícil de ser fechada. O que fazer diante da mais mísera consciência? Continuar, feito hipócritas na mesa do jantar, ou se pelar e incorporar a polícia ideológica e a auto-censura?
Seus pensamentos eram a esta altura um misto de fome e sede, ansiedade e cansaço, ausência completa de concentração. Os cigarros queimavam um após o outro entre seus dados. E entre uma dose ou outra já pela manhã, ele pensava na crueldade da auto-censura, da disciplina para o trabalho, nessa forma de ethos do trabalho que faz da culpa pelo ócio uma aferroada dolorida e pungente.

Decidira fazer um exercício e mudar lentamente. Tornar, cada dia mais consciente e madura, a ideia de que o ócio não precisa ser pensado a partir da lógica da acumulação. Genivaldo, como outros de sua geração, não estava tão disposto a perder a vida para ganhá-la, como fizera seus pais e avós. Não que sua vontade imperasse livremente, afinal isso não é algo que depende só da gente, haviam limites às suas aspirações pequeno-burguesas. De todo modo, a conjuntura também não favorecia. Ele tinha consciência de que as relações de trabalho há muito haviam deixado o paradigma da estabilidade e mergulhado às cegas ao da contingência, dos contratos sazonais e temporários.

Mesmo assim, uma sinapse a mais nesse sentido não seria perdida e, esperava que com o tempo essa ideia pudesse ganhar corpo, ou quem sabe se materializar em uma opção radical de vida. Genivaldo parava e pensava em um pequeno pedaço de terra, onde poderia plantar, escrever e se afastar cada vez mais de todo o frenesi que certamente é o espírito das cidades.

Sua crítica não era tolamente inocente, se é que isso não é algum tipo de tautologia. O que ele não queria era passar a imagem, ou dar a entender, que não compreendia o valor e o significado histórico que as férias remuneradas representam para o conjunto da classe trabalhadora. Sem dúvida que se constitui de um direito social importantíssimo. Mas não era disso que se tratava. Pensava ele, discutindo mentalmente após queimar os dedos em uma ponta de um cigarro de maconha.

Acontece que Genivaldo não era filósofo. Não podia se dar ao prazer de viver em devaneios ou simplesmente filosofando por aí. Hoje em dia nem mesmo os filósofos o podem. Sabia que aquilo era privilégio das férias. Imaginava o seu primeiro dia de retorno ao trabalho com uma ansiedade que o consumia. O relógio despertando, ele se levantando ainda sonolento, violentando o seu rosto com um primeiro golpe de água-fria e, em um segundo momento, com a lâmina de barbear, eliminando - na verdade achava aquilo uma escamação a serviço da assepsia burguesa - os quase imperceptíveis pelos que ainda insistiam em ocupar o seu rosto. Vestindo o uniforme, entrando no carro e mais onze meses de dias sem pensar em muita coisa.
Homem prático como a vida cotidiana exige. Invejava os, por assim dizer, "homens de ação". Decididamente não era alguém de ação e, a certa monta, se pegou mais de uma vez se vangloriando da sua negligência em relação aos prazos, aos valores, às regras, etc. Ainda hoje acreditava que um homem inteligente não poderia simplesmente decidir facilmente por uma coisa. Olha quanta vida ainda há para ser vivida, pensava Genivaldo. O mau-caratismo era, sim, como de fato lera em um livro velho, quase uma obrigação moral para as pessoas inteligentes.

Resignou-se em processar aquilo tudo discretamente e no seu interior. Fez do papel o seu capacho e, tão logo veio o sono, adormeceu vestido e ainda sem se banhar.





quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Manifestações de Junho ou a Revolta Junina

Confesso que resisti, inquieto, à tentação de escrever sobre os acontecimentos (manifestações "populares") que foram levadas a cabo nas ruas de quase todo o Brasil. É sempre difícil identificar as posições no calor do momento. Entretanto, mesmo agora, não é tarefa fácil fazer uma avaliação do governo do PT e das possíveis tendências políticas no Brasil. Também não é a isso que esse comentário se pretende, ou então estaria "cagando" artigos para a academia.

Depois de assistir a vários vídeos sobre as manifestações, alguns esperançosos, outros bastante pessimistas, outros ainda claramente produzidos na esteira do "vamos disputar consciências", acredito que a ideia e objetivo de "disputar consciências" se constitui em um ponto de partida completamente equivocado. Primeiro, porque isso reitera um pressuposto da teoria das elites de que há sempre uma maioria passiva diante de uma minoria ativa. Em linhas gerais o Estado de massas e a política de massas já provaram que mesmo os partidos ditos de esquerda quando almejam e alcançam o poder sobre esta máxima - mesmo que não abertamente, como é o caso do PT no Brasil - se utilizam de um recurso nada revolucionário, a demagogia. Basta lembrarmos das propagandas eleitorais cheias de bichinhos e artistas famosos, entre outros elementos coloridos.

Em que medida a propaganda de massa, enquanto técnica e recurso, pode ser a expressão do posicionamento ideológico e das ações e estratégias empreendidas pelos partidos modernos na construção de suas práxis?

Acredito que a ausência de um debate profundo e amplo a respeito dessa questão é, ao mesmo tempo, causa e efeito do modo como o quadro político do país está orquestrado. Nesse sentido, vem a tona as palavras de ordem e os discursos pautados pela ideia de "disputar consciências". O PSTU, por exemplo, parece crer que o proletariado pode ser despertado pela apresentação de seus "reais" objetivos - imediatos e/ou mediatos. Sua postura ao fazer isso tem dois efeitos mais facilmente perceptíveis: o primeiro diz respeito a sua fidelidade aos compromissos históricos do proletariado enquanto classe potencialmente revolucionária. Não se pode negar que isso tem um preço, e é a ele que faço referência ao falar do segundo efeito. Sem dúvidas que o proletariado não quer, por exemplo, a volta da inflação vertiginosa que esteve presente na vida dos brasileiros por tantos anos. Não quer pagar a dívida, mas também não quer o país torne-se instável para os investidores, o que certamente diminuiria os investimentos e traria fuga de capitais. O preço a pagar por se manter fiel a um projeto revolucionário é que nem todos estão dispostos a mudar radicalmente. O sucesso eleitoral do PSTU demonstra isso em um plano mais imediato.

Como trabalhar junto as massas? Qual o papel dos intelectuais na construção da luta política e da práxis? É possível transpor os limites da classe em si através da propaganda de massas dentro da estrutura política do país?

São todos questionamentos importantes que tangenciam as manifestações que surpreenderam o Brasil durante o ano de 2013. As pessoas demonstraram de maneira sintomática e, até tragicômica, que oportunistas de esquerda e de direita não eram bem-vindos quando deixavam transparecer que estavam ali "disputando consciências". Não faltaram cenas de hostilidade contra manifestantes e militantes partidários durante as manifestações de junho/julho.

Parece que estamos diante de uma problemática irônica. Ser fiel aos seus compromissos históricos e pagar o preço do fracasso nas urnas, ou aderir a propaganda de massas, densamente demagógica e apelativa, e participar do jogo democrático perseguindo a tal governabilidade?

O PT demonstra que optou pela segunda possibilidade, enquanto o PSOL parece ceder cada vez mais a essa tendência. O PSTU e o POR e o PCB pela primeira.





sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Crônicas do cotidiano escolar IV

Notas sobre A história dos homens e mulheres nestes espaços de "produção do conhecimento". 

Bundão! 
Entre os esteriótipos, os arquétipos da população que habita as escolas, nos perdemos nos professores barbudos de sociologia, na filosofia barata dos professores formados em outras disciplinas e que aceitam a filosofia - mas ela não os aceita -, na arrogância velada dos cumpridores de prazos, na também velada subversão dos protocolos, nas professoras cheias de recalque, taradas pela emoção, do amanhecer gélido ao anoitecer na masturbação. 
Bando de bundão. 
Isto sem contar as pedagogas, que de pedagógicas não tem nada. Representantes da ordem e da punição. Através de uma espécie de visão além do alcance, enxergam os mais imperceptíveis erros, cores de caneta, rasuras, qualquer coisa que, caso não seja notado, não fará a menor diferença. Mas entendo. São qualquer tipo de burocratas. O burocrata sabe do seu poder. Guarda a administração das nossas rotinas cotidianas como um conhecimento que serve de barganha. 
Lamentável!
Bundão!
É interessante e contraditório.
Essa foi a sensação que tive ao chegar na manhã de terça-feira na escola para a "formação em ação".
Um homem com uma farda da polícia, um arma de fogo na cinta e um discurso de resolução de problemas.
No mínimo uma contradição.
Não que a polícia não saiba resolver conflitos. É que ela resolve de forma nada pacífica e alternativa, como nos queria fazer acreditar o auto-confiante tenente Depois.
Logo a polícia militar no Brasil, a mesma que possui um histórico de violência incontestável, a mesma que foi responsável pelo aumento em quase seis vezes da população carcerária em apenas 10 anos. Como esperar de uma figura tão repleta de elementos simbólicos ligados a resolução violenta de conflitos uma ou várias soluções alternativas para os conflitos?
Me pergunto: Por que um policial está dando uma palestra sobre o papel do educador? Mais uma dessas políticas enfiadas goela abaixo e que não respeitam nem mesmo a coerência.
A gestão escolar, de maneira geral, tende para dois lados: o recurso da autoridade e das regras; e a esfera do humanismo assistencialista.
Ambos me parecem conservadores.
De certa maneira o policial, naquele dia, conseguia reunir as duas características.
Não consigo achar essas palestras interessantes.
Algo está cristalizado dentro de mim sobre esses eventos, uma espécie de pré-conceito mesmo.
Os conteúdos e as reflexões que efetivamente poderiam auxiliar o professor no processo de formação não são problematizados.
Os enfoques são, na maioria das vezes, restritos ao planejamento e ao cumprimento dos protocolos.
Tirei uma foto mental da porta da sala dos professores entreaberta. Uma professora não muito alta, um pouco gorda, esbravejando com outro professor a respeito dos disparates dos adolescentes mesmo quando todos insistem em lhes oferecer outra chance.
Fiquei um pouco envergonhado. Não sei dizer exatamente o por que. Só lembro que disfarcei ter visto a cena e andei rápido o suficiente para entrar na sala de aula e dar início ao trabalho.
Nosso futuro está nas mãos dos bundões bem intencionados. Cumpridores de protocolos.
Os alunos sentem o peso de uma instituição homogeneizadora. Percebem o quanto ela os en-forma.
A evasão escolar, o velho e persistente problema da indisciplina, o uso de ritalina e os laudos de déficit de atenção, são todos exemplos sujos do dia a dia dessa instituição tão marcadamente fabril e massificada.
Os últimos dias do ano letivo mostraram o quão melindrosa são as atitudes e a consciência de classe presente nos trabalhadores envolvidos com a escola e, de maneira geral, com a educação.
As normas, protocolos, leis, regras, hábitos profundamente arraigados, e outros tantos exemplos, recaem sobre a escola na figura fantasmagórica da instituição. 
Hoje no encerramento do Plano de Ação Descentralizado (PAD) tivemos a fala sincera e humildemente limitada de uma professora que falava em nome da Secretaria.
-É a vontade da mantenedora - dizia ela.
A mantenedora é uma espécie de semi-deus.
Isso.
Metade homem, metade entidade sobrenatural.
É por isso que me irrita os bundões.
Gado.