Genivaldo acreditava que a vanguarda para uma transformação mais radical da sociedade atual seria composta de pessoas como ele. Arrogante como todo típico sagitariano.
E vai saber se não? Pensava ele.
Acreditava - ou começava a acreditar - que as férias programadas eram algo violentamente anti-natural, uma tendência humana incrivelmente limitante e organizada em consonância à lógica do consumo. Uma grana a mais e nós, presos a essa lógica, mas ao mesmo tempo covardes, batemos no peito com orgulho de ter feito aquelas 12 horas sem folga, ou de ter perdido o sono há meses.
Tais pensamentos invadiram sua mente nos últimos dias. Ele andava confuso sobre como deveria formar uma opinião a respeito daquele momento de relativo e imediato conforto.
É aqui, neste exato momento, onde acabo arrefecendo minhas críticas em troca da satisfação de necessidades de consumo e status, que começo a me transformar em mais um resignado? Indagava Genivaldo com o olhar distante.
Certo dia, ainda nos primeiros dias das férias de um ano qualquer, Genivaldo sentiu mais profundamente esta inquietação interior. Pensou no quanto demoraria, ou pior, quais dias iria perder buscando não programá-los tal qual fazia com os dias e semanas dos outros onze meses do ano.
Isso o deixou ainda mais inquieto e desconfiado. Pensou em como era difícil desenvolver um pensamento crítico dentro de um mecanismo que bate e assopra. Está certo que mais bate do que assopra. E ele sabia disso. Mas a sedução e o isolamento parcial o reconfortavam. Imaginava estar um pouco longe da cidade, ou melhor, mais perto do mar, sem carros e asfalto.
Tinha dúvidas se aquilo era mesmo uma forma de libertação ou se era mais um episódio do programa anual de trabalho.
Talvez devêssemos nos reconfortar e esquecer isto. Por que não agir como os outros? Pensava ele.
E, de repente, se lembrava de como o conhecimento é uma porta aberta e difícil de ser fechada. O que fazer diante da mais mísera consciência? Continuar, feito hipócritas na mesa do jantar, ou se pelar e incorporar a polícia ideológica e a auto-censura?
Seus pensamentos eram a esta altura um misto de fome e sede, ansiedade e cansaço, ausência completa de concentração. Os cigarros queimavam um após o outro entre seus dados. E entre uma dose ou outra já pela manhã, ele pensava na crueldade da auto-censura, da disciplina para o trabalho, nessa forma de ethos do trabalho que faz da culpa pelo ócio uma aferroada dolorida e pungente.
Decidira fazer um exercício e mudar lentamente. Tornar, cada dia mais consciente e madura, a ideia de que o ócio não precisa ser pensado a partir da lógica da acumulação. Genivaldo, como outros de sua geração, não estava tão disposto a perder a vida para ganhá-la, como fizera seus pais e avós. Não que sua vontade imperasse livremente, afinal isso não é algo que depende só da gente, haviam limites às suas aspirações pequeno-burguesas. De todo modo, a conjuntura também não favorecia. Ele tinha consciência de que as relações de trabalho há muito haviam deixado o paradigma da estabilidade e mergulhado às cegas ao da contingência, dos contratos sazonais e temporários.
Mesmo assim, uma sinapse a mais nesse sentido não seria perdida e, esperava que com o tempo essa ideia pudesse ganhar corpo, ou quem sabe se materializar em uma opção radical de vida. Genivaldo parava e pensava em um pequeno pedaço de terra, onde poderia plantar, escrever e se afastar cada vez mais de todo o frenesi que certamente é o espírito das cidades.
Sua crítica não era tolamente inocente, se é que isso não é algum tipo de tautologia. O que ele não queria era passar a imagem, ou dar a entender, que não compreendia o valor e o significado histórico que as férias remuneradas representam para o conjunto da classe trabalhadora. Sem dúvida que se constitui de um direito social importantíssimo. Mas não era disso que se tratava. Pensava ele, discutindo mentalmente após queimar os dedos em uma ponta de um cigarro de maconha.
Acontece que Genivaldo não era filósofo. Não podia se dar ao prazer de viver em devaneios ou simplesmente filosofando por aí. Hoje em dia nem mesmo os filósofos o podem. Sabia que aquilo era privilégio das férias. Imaginava o seu primeiro dia de retorno ao trabalho com uma ansiedade que o consumia. O relógio despertando, ele se levantando ainda sonolento, violentando o seu rosto com um primeiro golpe de água-fria e, em um segundo momento, com a lâmina de barbear, eliminando - na verdade achava aquilo uma escamação a serviço da assepsia burguesa - os quase imperceptíveis pelos que ainda insistiam em ocupar o seu rosto. Vestindo o uniforme, entrando no carro e mais onze meses de dias sem pensar em muita coisa.
Homem prático como a vida cotidiana exige. Invejava os, por assim dizer, "homens de ação". Decididamente não era alguém de ação e, a certa monta, se pegou mais de uma vez se vangloriando da sua negligência em relação aos prazos, aos valores, às regras, etc. Ainda hoje acreditava que um homem inteligente não poderia simplesmente decidir facilmente por uma coisa. Olha quanta vida ainda há para ser vivida, pensava Genivaldo. O mau-caratismo era, sim, como de fato lera em um livro velho, quase uma obrigação moral para as pessoas inteligentes.
Resignou-se em processar aquilo tudo discretamente e no seu interior. Fez do papel o seu capacho e, tão logo veio o sono, adormeceu vestido e ainda sem se banhar.
E, de repente, se lembrava de como o conhecimento é uma porta aberta e difícil de ser fechada. O que fazer diante da mais mísera consciência? Continuar, feito hipócritas na mesa do jantar, ou se pelar e incorporar a polícia ideológica e a auto-censura?
Seus pensamentos eram a esta altura um misto de fome e sede, ansiedade e cansaço, ausência completa de concentração. Os cigarros queimavam um após o outro entre seus dados. E entre uma dose ou outra já pela manhã, ele pensava na crueldade da auto-censura, da disciplina para o trabalho, nessa forma de ethos do trabalho que faz da culpa pelo ócio uma aferroada dolorida e pungente.
Decidira fazer um exercício e mudar lentamente. Tornar, cada dia mais consciente e madura, a ideia de que o ócio não precisa ser pensado a partir da lógica da acumulação. Genivaldo, como outros de sua geração, não estava tão disposto a perder a vida para ganhá-la, como fizera seus pais e avós. Não que sua vontade imperasse livremente, afinal isso não é algo que depende só da gente, haviam limites às suas aspirações pequeno-burguesas. De todo modo, a conjuntura também não favorecia. Ele tinha consciência de que as relações de trabalho há muito haviam deixado o paradigma da estabilidade e mergulhado às cegas ao da contingência, dos contratos sazonais e temporários.
Mesmo assim, uma sinapse a mais nesse sentido não seria perdida e, esperava que com o tempo essa ideia pudesse ganhar corpo, ou quem sabe se materializar em uma opção radical de vida. Genivaldo parava e pensava em um pequeno pedaço de terra, onde poderia plantar, escrever e se afastar cada vez mais de todo o frenesi que certamente é o espírito das cidades.
Sua crítica não era tolamente inocente, se é que isso não é algum tipo de tautologia. O que ele não queria era passar a imagem, ou dar a entender, que não compreendia o valor e o significado histórico que as férias remuneradas representam para o conjunto da classe trabalhadora. Sem dúvida que se constitui de um direito social importantíssimo. Mas não era disso que se tratava. Pensava ele, discutindo mentalmente após queimar os dedos em uma ponta de um cigarro de maconha.
Acontece que Genivaldo não era filósofo. Não podia se dar ao prazer de viver em devaneios ou simplesmente filosofando por aí. Hoje em dia nem mesmo os filósofos o podem. Sabia que aquilo era privilégio das férias. Imaginava o seu primeiro dia de retorno ao trabalho com uma ansiedade que o consumia. O relógio despertando, ele se levantando ainda sonolento, violentando o seu rosto com um primeiro golpe de água-fria e, em um segundo momento, com a lâmina de barbear, eliminando - na verdade achava aquilo uma escamação a serviço da assepsia burguesa - os quase imperceptíveis pelos que ainda insistiam em ocupar o seu rosto. Vestindo o uniforme, entrando no carro e mais onze meses de dias sem pensar em muita coisa.
Homem prático como a vida cotidiana exige. Invejava os, por assim dizer, "homens de ação". Decididamente não era alguém de ação e, a certa monta, se pegou mais de uma vez se vangloriando da sua negligência em relação aos prazos, aos valores, às regras, etc. Ainda hoje acreditava que um homem inteligente não poderia simplesmente decidir facilmente por uma coisa. Olha quanta vida ainda há para ser vivida, pensava Genivaldo. O mau-caratismo era, sim, como de fato lera em um livro velho, quase uma obrigação moral para as pessoas inteligentes.
Resignou-se em processar aquilo tudo discretamente e no seu interior. Fez do papel o seu capacho e, tão logo veio o sono, adormeceu vestido e ainda sem se banhar.