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quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Pode levar

- Pode levar! Pode levar!
Luiz ouviu a ordem de um dos polícias enquanto observava o carro prata parado no estacionamento do bar. O carro era seu. Ao sair do posto com as duas latas de cerveja, percebera que havia fechado o carro com as chaves dentro. Tentou abri-lo de todas as maneiras, um pouco conformado com a desventura. Não queria chamar a atenção de ninguém, tampouco dos muitos criminosos de pequeno porte que frequentavam o lugar.
- Esse carro é meu, senhor – afirmou ele.
- E quem é você? Documento de identificação, seu e do veículo, cidadão.
O policial mais corpulento se aproximou dele com uma autoridade alimentada pelos símbolos de caveira que compunha a marca dos grupamentos especiais da polícia. “Não posso tremer, ou estou ferrado”, pensou ele. Abriu a carteira lentamente e retirou o documento envolvido em um plástico. Os documentos do carro estavam todos atrasados. Ele sabia disso. Tinha consciência de que teria de contar com a comiseração dos policiais. O outro policial, aparentemente mais calmo, era menor em estatura, conquanto corpulento também. Sua silhueta, todavia, não era atlética como a de seu companheiro. Foi ele o responsável pela consulta à central, solicitada através do rádio da viatura.
- Ih, este documento é muito antigo. Vê se você acha um mais recente aí – disse o policial em tom irônico.
- Não acredito. Acho que esqueci o documento atual em casa – respondeu Luiz suplicante.
- Tem passagem? - interpôs o policial grandalhão.
- Não, senhor. Sou professor. Saí para tomar uma cerveja com meu amigo que trabalha na Gazeta Paranaense.
O jornal era grande e conhecido, e Luiz teve certeza de ter aplicado a dose certa de sinceridade. Neste momento, Moacir baixou os braços que até então haviam estado sobre a cabeça, e caminhou lentamente em direção a Luiz e o carro. Felizmente houve coincidência entre a história contada pelos dois, o que visivelmente pareceu ter resolvido a situação.
Um dos policiais sacou a lanterna da cinta e buscou verificar se havia algo de suspeito dentro do carro. Luiz aproveitou a situação e arrematou o coração da dupla.
- Por favor, mire na ignição. Tenho quase certeza de que as chaves estão lá.
Sem responder nenhuma palavra, o policial atendeu ao pedido de Luiz e pôde visualizar o chaveiro do alarme pendurado na chave que estava no contato. É possível que somente naquele momento Luiz tenha se lembrado do que trazia no bolso. “Ainda bem que não me revistaram”, pensou ele. Os policiais caminharam juntos em direção a lateral pouco iluminada do bar. Luiz ainda pensou na possibilidade daquilo tudo terminar muito mal. Estavam realmente com sorte, ou azar, não sabiam exatamente. Quando eles voltaram para perto de Moacir e Luiz, um dos policiais trazia consigo um pedaço de arame. Sem acreditar muito no que estava acontecendo, os dois ouviram o militar dizer:
- Tente colocar este arame por aqui, puxando a porta deste jeito, depois direcione-o para a maçaneta interna e....boa sorte. Não quero mais vê-los por aqui. Assim que terminar com isto, sumam!
- Obrigado. Já estamos de partida. Só preciso decidir qual o menor dos prejuízos a assumir.
Os policiais quase sorriram, mas presos as carrancas que compunham seus personagens, engrossaram as vozes e, quase simultaneamente, disseram:
- Vocês estão errados. Os documentos do veículo estão em desacordo com a lei, não foram pagos.
Por alguma razão desconhecida, até mesmo por Luiz, seu amigo não conseguiu se controlar e resmungou, um pouco de lado e com a boca retorcida:
- Porcos!
Luiz tentou se mexer rapidamente a fim de que o movimento de seus pés fizesse um som que se sobrepusesse a coragem estúpida de Moacir. Foi em vão.
- Encostem no carro! Agora! Mãos na cabeça!
Ao se virarem, em uma espécie de reflexo, abriram as pernas temendo que um chute as fizesse abrir. O policial que outrora parecia mais calmo, agora assumia uma feição verdadeiramente demoníaca. Moacir tinha consciência do que acabara de fazer. Uma consciência orgulhosa e quase anarquista, mas tinha.
-Barros, olha o que eu achei aqui.
Moacir pensou que estavam encrencados. Ele estava envolvido até os ossos com tudo o que Luiz decidira fazer. Mas mais ainda com o que resolvera esconder no pequeno compartimento que ficava na parte de cima do bolso de sua calça jeans. No entanto, o policial com aspecto de demônio se referia a um adesivo comunista que estava colado na parte interior da carteira de Luiz.   
- Quer dizer que vocês são desta turma dos “Petralhas”? – perguntou o colega do soldado Barros.
- Não. Nada disso, senhor – respondeu Luiz. Há quem diga que o partido no poder nem de esquerda é.
Os militares claramente não entenderam o que Luiz tentara dizer. Ao se virar para responder, Luiz também pode ler o nome do parceiro de Barros. O sutache trazia o seu sobrenome: De Sá. Os dois soldados, Barros e De Sá, passaram daquele momento em diante a incorporar um ódio quase irracional por Luiz e Moacir. Vasculharam o carro todo atrás de drogas, armas, ou qualquer outro objeto delituoso. As pessoas já estavam acostumadas com o léxico pretensamente técnico utilizado por militares. Luiz até achara engraçado a expressão “objeto delituoso”. Mas não naquela hora. Permaneceram ali por cerca de mais vinte minutos. “Poderia não ter gastado mais do que alguns reais e ficado em casa em uma noite fria e chuvosa como esta”, pensou Luiz. Passado um tempo, após não encontrarem nada no carro, restara apenas questões que podiam ser resolvidas no Batalhão de Transito. Os policiais, embora ainda com sede por algum motivo, razão ou circunstância que permitisse incriminar Luiz e Moacir, pareciam indispostos a levar aquela situação a diante. Eles não estavam ali para autuar infratores de trânsito. Após deixarem o local, Luiz descartou a possibilidade de abrir o carro com o pedaço de arame. Aquilo requeria habilidades que lhe faltavam. Decidiu lançar uma pedra grande contra a janela do passageiro e assumir o prejuízo do vidro. Poderia ter quebrado com um golpe de mão, um soco talvez. Mas desistira da ideia. Há pouco, depois de muita insistência, permitira que um dos moradores de rua que estavam no local e observava a situação tentasse quebrar o vidro com a mão. Viu o rapaz de pele parda e rosto magro desistir na primeira tentativa frustrada, e sair balançando a mão com dores que não podia conter.  
Mesmo com o vidro quebrado, os dois comemoraram a violação do carro. Podiam agora ir para o apartamento de Moacir e conversar um pouco sob o efeito de álcool. Era para isto que se encontraram naquela noite, antes do incidente com as chaves. Ao chegar no apartamento sentiram que havia paz em estar em casa. Moacir aconselhou Luiz a esvaziar os bolsos antes de saírem para comprar mais cervejas no posto que ficava a duas ou três quadras do condomínio. Ele prontamente obedeceu. Também era de seu interesse que aquilo que Luiz conseguira permanecesse protegido. Os dois compreendiam mutuamente a expectativa contida nisto, embora não verbalizassem. O apartamento de Moacir estava aquecido e sentiram, uma vez mais, que ali era mesmo um lugar seguro.
- Ainda não estou acreditando que você falou daquele forma com os policiais – disse Luiz balançando a cabeça e mostrando um sorriso pequeno.
- Peço desculpas. Não consegui me controlar. Tive consciência de que não deveria ter permanecido calado. Poderíamos ter apanhado, a polícia aqui é bastante truculenta. Mas não podia deixar em brancas nuvens aquela hipocrisia de voz grossa que os policiais manifestavam.
- Entendo você. Minha surpresa não é pela aparente idiotice do ato, mas pela coragem que você demonstrara ter.
Os dois saíram do prédio e caminharam em silêncio por aproximadamente metade da quadra. Moacir pediu um cigarro e o acendeu com o isqueiro zippo de Luiz. A madrugada seguia ainda mais fria; o céu parecia mais baixo do que o normal e estava carregado de um alaranjado úmido. A caminhada contra o vento quase os fizera desistir de beber cerveja gelada. Luiz pensou por um instante em comprar uma daquelas garrafinhas de whisky que são vendidas em lojas de conveniência, mas desistiu da ideia por acreditar que desagradaria Moacir. O atendente, àquela hora, demonstrara um mal humor compreensível. Compraram as cervejas e saíram da loja, o único foco de luz branca e estável em duzentos metros ou mais. A iluminação das ruas era de lâmpadas de mercúrio e seu espectro de luz era amarelo, o que produzia um efeito lúgubre e nostálgico, mas ao mesmo tempo charmoso. O condomínio onde Moacir morava ficava em uma das ruas que cruzava a larga avenida de quatro vias. 
Voltavam a passos curtos, porém acelerados. O vento castigava as faces descobertas dos dois. Avistaram de longe a silhueta de três pessoas. Caminhavam em direção a elas com certo receio. Estavam já muito próximos do prédio e cruzaram-se na calçada. Moacir, nem tampouco Luiz, estabelecera alguma forma de diálogo verbal com aquelas pessoas. Mas ao fitar os olhos de uma delas, a menina mais nova que vinha acompanhada de um casal de amigos, teve a impressão de conversar com ela e ouvi-la dizer: “Estou onde você estiver, com quem estiver. Estive a pouco contigo”. Luiz estremeceu e teve dificuldade de creditar valor aquilo que acabara de ver. Não conseguia acreditar ter visto a pouco o rosto fino, de pele lisa e sem cor da menina assumir as feições e os traços do soldado Barros. Moacir ainda lembrava da conversa muda. “Sei quem é você. Já o vi entre eu e meus amigos”. A garota outrora delicada, ainda que com cor e certo aspecto cadavérico, respondera, agora já através da boca do soldado Barros: “Estarei contigo ainda esta noite”.
Isto era tudo. Luiz não quis comunicar aquilo a Moacir, nem ele manifestou alguma atitude no sentido de compartilhar a conversa velada e impossível que acabara de ter com um daqueles desconhecidos.   
- Esta cerveja está congelando meus dedos – disse Luiz trocando a lata de mão.
- Estamos chegando – respondeu Moacir.
Desejaram boa noite ao porteiro quando passaram pela entrada da rua lateral e subiram ao apartamento novamente. Moacir entrou na cozinha para guardar a cerveja na geladeira, embora o frio fosse tamanho que pensou por um instante nem precisar de refrigerador. Ele viu Luiz se apressar em conferir a posição daquilo que deixara em cima da estante, antes da saída ao posto. Luiz tateou a parte mais alta da estante. Não havia nada ali. Ele foi tomado de um sentimento de cólera que buscou controlar para continuar a procura. Moacir pensou no gato: “O gato pegou e, se não abriu, brincou de esconder”. Terminou de guardar as cervejas. Reuniu as sacolas e a embalagem plástica que envolviam as latas, e pôs-se a ajudar Luiz.
- Tenho a impressão de que o gato pegou – disse ele enxugando as mãos na calça jeans.
- Por que você não me avisou deste perigo?
- Esqueci. Depois de tantos infortúnios achei que nada mais nos pudesse acontecer.
Continuaram a procura, erguendo os móveis, arrastando-os, recolocando-os nos lugares de origem. O gato apareceu. Espreitou o que acontecia na sala e miou. Luiz e Moacir não se viraram imediatamente. Outro miado se deu, agora mais agudo e marcante. Viram os pares de olhos amarelos por entre a porta da sala escura do escritório, fitando-os. Moacir,  apesar de assustado, sentia uma estranha familiaridade. Não sabia se aqueles olhos felinos queriam lhe ferir ou simplesmente se comunicar. A busca foi interrompida por força da situação. Moacir deu um passo em direção a porta. “Haverá alguma relação entre este e aquele olhar?”, pensou ele. O gato ronronou. Luiz admitiu a existência de tudo aquilo que lhes acometera o sossego naquela noite e pensou: me restaram seis vidas.