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segunda-feira, 5 de maio de 2014

Amauri (não) sabe amar !?

Ele pensava, acreditava que de alguma maneira tudo fazia sentido naquele momento. De repente ficou claro para ele o modo como, lentamente, não havia substituído a vida errante e cheia de manhãs de ressaca moral por uma melhor ou sem os martírios morais. Pelo contrário. Havia compartimentado, formalizado um acesso burocrático aos prazeres e, por conseguinte, às ressacas que o fazia rolar na cama pela manhã. Ouvia o canto dos passarinhos com as cortinas ainda cerradas. Sem ter gozado de um sono suficientemente profundo, pensava em todas as coisas que deveria ter feito e não fez, no quanto aquilo já o havia machucado e, levado ao desespero, nos limites do seu sofrimento e nas razões para continuar vivo. 
Guardei os arrependimentos morais para ocasiões especiais, pensou ele. Nem de longe os substitui por uma vida digna e disciplinada, continuou. 
Chegou do trabalho naquela sexta-feira chuvosa, vésperas do equinócio da primavera, e já sentia a coerção social trazida a reboque pela indústria. Frenética em encher a todos de chocolates e produzir a atmosfera do amor através da exploração dos desejos e da fé. 
Aquele era um ano de eleições e, a apenas alguns meses do pleito, muitas categorias profissionais se mobilizaram em movimentos de greve. Porém, nada parecia fazer o governo retroceder e, bem possivelmente, os professores da Educação Básica sofreriam mais um revés. 
Mas era sexta-feira. O dia mais emblemático do compartimentado prazer, garantido pelo uso e abuso de determinadas drogas, lícitas e ilícitas. Sua aparência fatigada produzia sentimentos contraditórios. 
Preciso descansar, meu corpo pede isso, pensava ele, ao mesmo tempo que dizia: vou acabar me negando o prazer por um longo período, acostumando com isso e, inevitavelmente, me drogando de fluoxetina.
Seu espírito estava convulsionado pela convergência de fatores que ora o empurravam para debates políticos muito sóbrios - trejeitos da intelectualidade acadêmica -, ora para turbulentas situações marcadas pelo amor que uma mestiça confessava a ele.
Ela era moça jovem, de família, e já estava ao passo de concluir seus estudos e a ser outorgada com o título de doutora.
Essa mudança de escala dos problemas o arrebatavam. Era como se visse a sombra de si mesmo, sóbria e soberba, envergonhada do quão mortais podem ser as angústias dos homens comuns.
Nesse âmbito pouco valia seus títulos - também acadêmicos. Pouco valia sua reputação, ainda que não passasse da admiração de alguns adolescentes e de um não muito grande círculo de amigos.
Pensava em como superar a pequenez inerente aos flagelos da paixão e do amor e foi neste instante que uma ideia lhe surgiu: uma boa farra com algumas prostitutas seria um passo em direção à indiferença e, por conseguinte, revelaria o mero interesse sexual transvestido de paixão que insiste em me afligir.
Tão logo se viu dentro de um daqueles prostíbulos medianos no centro da capital paranaense, tratou de procurar a mais encantadora profissional. Na Riachuelo, próximo do estabelecimento, acendeu um cigarro. Achou que era um modo de passar despercebido entre aqueles transeuntes errantes que orbitam as putas. E deu sorte (ou azar). Viu de longe quem o interessava; e flertaram através de pares de olhos penetrantes, como o olhar da fera lançado sobre a presa. Claro que com objetivos nitidamente diferentes. Ele pela já enunciada ideia - brilhante ou não. Ela pelo que a literatura sociológica chamaria de ação racional com relação a fins, ou, traduzindo o palavrório, pela razão de mercado.
Não imaginava ele que quanto mais fugia da mesquinhez que tradicionalmente acompanha todos os problemas de pequena monta e as questões da chamada pequena política, mais se adiantava no interior do privatismo, do particularismo e da miséria moral.
Outra vez, já crente no sucesso da ação motivada por aquele genial insight, esteve à porta do estabelecimento. Mas, como quem não pode (e não quer) evitar, se inundou das lembranças dos toques, cheiros, suores, e, inimagináveis prazeres proporcionados pelo cuidado e apreço de Jucimara, sua mestiça. E, diante disso, retrocedeu. Preferiu esquecer da Vênus que o possuiu da última vez que ali estivera.
De fato a profissional era linda. Cabelos pretos, pele clara, com um aspecto mais corpulento e curvilíneo do que as magricelas moças da moda, de estatura mediana e um par de pernas arrebatadores; o pouso silencioso e furtivo de Morfeu, ó filho do Sono.
Acabou por amar aquela mulher. Não no sentido cristão, geralmente acompanhado de uma agenda de compromissos à bandoleira. Amauri nem procurava algo assim. Nem tampouco ela, a puta; mulher experiente e profissional.
Mas o coração não reage a decretos. Amauri se viu entre dois mundos: um permeado pela vida regrada de homem de família, cachorro, casa própria e dois filhos. Outro um tanto solitário e mais intenso, marcado pelo botequim e pela instabilidade financeira e emocional.
Ele não queria ter que escolher. Preferia viver as duas vidas, como dois ou mais "eus". Sabia e já tinha sido aconselhado, mais de uma vez, pelo biscate que atendia pela alcunha de "Preto", que tinha de escolher.
Preto era um amigo recente, mas já bastante íntimo. Não podia ser considerado o melhor dos conselheiros amorosos. Mesmo com a pouco idade - aquela altura não completara trinta e cinco anos - já havia gerenciado pelo menos duas casas noturnas na região metropolitana de Curitiba. Estava em liberdade há pouco tempo, após ser preso pela terceira vez na posse de entorpecentes.
Mesmo assim, Amauri tinha poucos amigos, e tentou acatar o conselho.
Decidido a encontrar um caminho mais fácil e confortável do que aquela dualidade diabólica, resolveu ter com a mestiça.
- Jucimara, estive pensando sobre sua demonstração de carinho por mim, e estou decidido a tentar algo mais sério com você. O que acha de começarmos um namoro?
A moça quase não pode conter a emoção de ver seus sonhos, depois de tanto esforço, se concretizarem ali, à sua porta. Mas não agiu por impulso e respondeu a ele:
- Por quais razões decidiu isso agora? Como posso me certificar de que sua decisão não me deixará na penumbra a sofrer?
Amauri não respondeu, de sua boca não saiu uma palavra. Mas agarrou a moça pela cintura e selou um beijo decidido em sua boca.
- Tem minha palavra que quero levar uma vida decente ao seu lado. Farei o que puder para ser sincero e para não transformar em um mar de fel os sentimentos que alimenta por mim.
Quatro meses depois, Amauri resistia. Já não tinha aquela força e disposição que outrora parecia tão clara e justificada. No final de semana passado, por ocasião de um encontro casual com Preto, acabou por procurar a moça do cabaré.
Embora no outro dia sua consciência estivesse pesada por, de alguma maneira, trair os sentimentos de Jucimara, quando se percebeu na sexta-feira, início de mais um fim de semana, sentiu outra vez o desejo de uma vida imprevisível e destemperada.
Despistou a pobre Jucimara com a desculpa de que precisava muito adiantar a correção das provas e trabalhos dos alunos. Ligou para o celular do seu amigo, Preto. Marcou mais uma vez de se divertir na zona, onde sua morena trabalhava de terça a sábado. Os dois rapazes se encontraram e, sem muita pressa, se dirigiram ao local. Ele, ao vê-la, explodiu de tesão e, estando uma vez a sós com ela, lambuzou-se a noite inteira.
Ao acordar pela manhã, ainda naquele quarto com forte cheiro de perfume barato, sexo, álcool e cigarros, pensou que não podia evitar, que esse era o seu verdadeiro "eu". Muito embora cheio de contradições.
Ao encontrar Jucimara novamente, teve certeza de que mais um de seus relacionamentos iria ser levado pela vida dupla que sempre marcou sua personalidade. Decidiu manter sua identidade secreta a sete chaves, e não arredar o pé na manutenção daquela duplicidade moral.
Olhou nos olhos de Jucimara e disse:
- Obrigado por me amar, por cuidar de mim e estar comigo.
Ele sabia que ela, no fundo, havia se apaixonado também pelos seus defeitos. E que enquanto não fosse algo explicitamente violento à moralidade cristã, ela o toleraria.