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quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Aristides e a morte


Não se sabe (e não importa) os meios de dar início a estória deste homem.
Gostaria apenas de destacar, para que aquilo que eu ainda vou contar não fique sem um ponto de partida, que tudo começou com as neuroses de Aristides.
Ele sempre teve pequenos problemas. Mas, como se sabe, tudo pode mudar rapidamente, e fatos isolados e sem a menor importância começam a convergir numa mórbida combinação de resultados.
 Nestes momentos, é sabido que a linha entre o paraíso da lucidez e os campos desertos da loucura é muito tênue. Quase sempre com transeuntes com um pé lá, outro cá. E como saber? Aristides ao menos questionava. Embora sempre perguntasse à pessoa errada. Perguntava para si mesmo.
Seu namorado, o obeso Alexandre, o completava em arrogância. Fazia aquilo para se proteger. Fingia (e já chegara a acreditar) que possuía uma beleza incontestável, apesar do estrabismo e da corpulência. Mas Aristides gostava. Ele mesmo era bastante assim. Mais bonito, sem dúvida.
A segunda paixão de Aristides – depois do Alexandre – era o tabagismo. Aristides não gozava de muita saúde, não praticava esportes e, ainda novo abusara da cocaína e de outras porcarias do prazer. Ao menos ele não sentia culpa – e isto já sou eu que estou dizendo. Fumava muito!
Seu modo quase obsceno de chupar o filtro do cigarro, enfiando-o quase todo na boca, era para ele uma espécie de performance. Passaram-se dez anos. E Aristides já não tinha 33 anos. Fumara muito. Agonizando um câncer no estômago, secou seu corpo pálido nos braços de Alexandre. Morreu!
Dizem – falo assim quando quero dizer algo que não tenho coragem de assumir – que o câncer se alimenta das raízes de amargura e das experiências de vida. Não sei. Aristides e Alexandre pareciam ter podado as raízes depois daquela briga e da quase separação. Demonstravam ter superado.
Mas, muita coisa acontecera nos últimos dez anos. Não teve jeito. A rotina fertilizou a terra, deu as células de Aristides ao câncer. Alexandre ligou para os amigos, e repetiu quase mecanicamente a mensagem de luto.
Uma de suas amigas recentemente tocara no assunto, contando a outro amigo que estivera fora, o caso do falecimento de Aristides. Mas esta também não é mais a estória dele, o Aristides, e sim do casal recém-encontrado. Tais amigos já fizeram pouco caso. A ocasião em que tocaram no assunto demandava sexo e, a morte do pobre diabo do Aristides, se tornara apenas o prenúncio da transa porvir. Quem tem culpa?

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