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sábado, 26 de julho de 2014

Crônica do cotidiano escolar IV

Uma mensagem e temos o início de mais um encontro para a formação continuada dos trabalhadores da educação. É uma pena não haver um campo na plataforma Lattes apenas para tais mensagens de auto-ajuda, haja visto o extremo esforço e o demasiado dispêndio de paciência que demandam.
As propostas possuem um aspecto de boa intenção. Não obstante, os modelos impostos pela secretaria de educação, são todos recobertos de uma fala mansa e bastante didática.
Evidentemente que há uma hipocrisia atmosférica entre todos os presentes e, de maneira geral, no próprio ambiente. Ainda mais forte e pesado do que a corriqueira e, quase amiga, charla.
A coincidência conjuntural da realização do mundial de futebol às vésperas das eleições presidenciais no país reforçou - com direito a canto do hino nacional em posição de sentido - o velho e famigerado nacionalismo.
Sinceramente, nem parece tão velho, embora famigerado sim.
A simbiose entre república e igreja, a despeito da tão aclamada laicidade do Estado, transforma sempre os primeiros minutos dos encontros em uma espécie de liturgia. Seria pior se eu estivesse de ressaca, mas não é este o caso.
Inspirado pelo trabalho daquele famoso jornalista da High Times, penso se não estaríamos melhor experimentando formas alteradas de consciência. Ainda bem que só penso e escrevo esse tipo de coisa; chego a ter calafrios na espinha de imaginar alguém ouvindo eu dizer essas coisas em um ambiente tão conservador e cristão.
De maneira geral, os fundamentalismos crescem muito no Brasil e nem parece haver ambientes muito menos cristãos ou conservadores.
Os trabalhos seguiam arrastados pelo já cansado conceito de cidadania. Em nome da cidadania as instituições legitimam as mais disparatadas ações e intervenções. Nos últimos dois anos o tema mais recorrente nos eventos de formação e de planejamento é o da diversidade e o da inclusividade. São muitos vídeos, impressos, debates, falas, palestras, etc., que buscam subsidiar os trabalhadores da educação a lidar com um dos efeitos da universalização do acesso à educação. Essa conquista, todavia burguesa - seja lá o que isso realmente signifique para nós com nosso passado colonial e escravagista baseado no exploração de negros e índios -, a alfabetização, além de um avanço, é, nas atuais condições, profundamente ideológica.
Isso na medida em que se converte, ao invés de um processo emancipador, em algo extremamente tolhedor e massificador. Não é à toa que as avaliações dos governos estaduais e nacionais apontam para uma situação muito alarmante: mais da metade dos alunos estão "abaixo do adequado".
Mas voltemos ao evento.
O diretor não estava presente e quem dava as orientações era a vice-diretora, Inês, além da Pedagoga 1, Pedagoga 2, Pedagoga 3 e Pedagoga 4. As pedagogas são, quase sempre, muito diferentes, mas as vezes vestem o mesmo terninho e ficam praticamente indiferenciadas. Mas são todas muito diferentes. Com exceção daqueles momentos em que elas decidem discorrer sobre a meritocracia que as agracia com os avanços no plano de carreira. São longos vinte anos de educação pública. Há que se reconhecer o pouco de autoridade que a história lhes concede.
Um professor um pouco mais velho, alcoolista recuperado, gritava nos intervalos da fala da diretora: "E o café?". Eu, muito discretamente, concentrava meu olhar no palco italiano do salão e fingia não ouvi-lo. Me senti um pouco envergonhado com aquilo.
O café era, de fato, um gozo coletivo. Todos ansiavam pelo café. Todos os envolvidos na educação costumam acordar muito cedo. Assim, 09:35 a maioria já estava um tanto faminta.
Era o momento, o reinado da já citada charla. Lembro que conversamos por longos vinte cinco minutos sobre o nome do doce de leite. A professora de história dizia que o nome era "pinto de padre". Todos riam e algumas professoras concordaram que o pinto era muito pequeno. Assim, rimos um pouco mais e nos drogamos levemente de cafeína e açúcar.
Enquanto o ponto eletrônico e os encontros programados cumpriam seus deveres na sedimentação daquela rotina, isto é, enquanto éramos todos engolidos pelo cotidiano, eu pensava sobre a minha incapacidade, a falta de habilidade que não me permitia se engajar plenamente em causa alguma. Eu não estava à altura de nenhuma causa. Pelo menos era isso que me diziam os membros de cada uma quando conversavam comigo. Nem do feminismo, do marxismo, da palestina, dos negros, dos índios, dos deficientes, da educação, nada. Absolutamente nenhuma delas. Era um cara mais ou menos em tudo. Tinha o talento natural de ser mediano. 
Intervalo para o almoço. 
Ao retornar do almoço o grupo maior se dividiu em pequenos grupos. Cada um com um sub-tema dentro de uma proposta maior em torno da ideia de inclusão. O meu grupo era dos idosos. De maneira geral achei legal. Já tinha algum contato com os estudos e projeções do IBGE sobre o mercado de trabalho e o envelhecimento da população no Brasil. Ao fim da tarde o cansaço era inegável. Um dia todo sentado discutindo problemas ligados a educação não é muito entusiasmante para ninguém. Alguns professores já manifestavam sinais de ansiedade. Saímos da escola como as crianças e adolescentes fazem no fim de cada período, correndo. Todos muito apressados em direção ao restinho de tarde



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