Trinta
dias correram. A presunção de relativa glória. Devagar para com os vícios,
muito rápido para com o filho que há de vir. Procuro Mautner lentamente. Já fiz
exercícios logo cedo. A ansiedade me tira o sono e o apetite. O cão é
experiência paradoxal – todas são. Andamos pela calçada fedida da rua. Falta de
saneamento. É uma rua bonita com calçamento de pedra. São 06:32 de uma manhã de
verão. Encontro outros como eu, fumando. De bermuda e camiseta, fumando, passam
mais dois. O que é ser um homem ou uma mulher nessas ruas de pedra, com cheiro
de fossa, as 06:00 da manhã? Trinta dias correram. O túnel lentamente se
expande. Já não apresenta sua forma circular, arredondada. Hoje o cão conseguiu
me acompanhar. Fiz carinho na sua cabeça dura. Seus pelos cor de caramelo. O
sol nasce na janela da sala. Produz uma luz elegante e acho isso agradável. Há
dias que a atmosfera política tem tons de golpe. Formas carcomidas de massacre,
crime social. Alguns de nós sentem o fardo com muito pesar. Outros apenas
sentem. Talvez, diante de tantas certezas, fosse melhor apenas sentir. Sou eu
dirigindo pela noite, estrada a fora, depois de mais um dia longo. Fumando.
Gosto do espectro amarelo das luzes das ruas onde passo. As novas, de espectro
branco, iluminam mais. Mas não são tão charmosas. A música alta e a fumaça
densa dos cigarros de maconha incitam a reflexão. Triste. Nossa comunicação não
funcionou. Eram mentes resistentes. Cansadas da rotina, apaixonadas por ela.
Algo de passional que já conhecemos. Um radical disse: chega! Não foi
suficiente. A rotina se agigantou. Coisas pequenas tornaram-se enormes blocos
de pedra. Correntes. Trinta dias correram. Pequenas plantas num vaso de
plástico. Singelas como devem ser. Alimentam nossa esperança: há mais dias a
correr. Trinta outros virão.
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