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sexta-feira, 30 de março de 2018

30 dias


Trinta dias correram. A presunção de relativa glória. Devagar para com os vícios, muito rápido para com o filho que há de vir. Procuro Mautner lentamente. Já fiz exercícios logo cedo. A ansiedade me tira o sono e o apetite. O cão é experiência paradoxal – todas são. Andamos pela calçada fedida da rua. Falta de saneamento. É uma rua bonita com calçamento de pedra. São 06:32 de uma manhã de verão. Encontro outros como eu, fumando. De bermuda e camiseta, fumando, passam mais dois. O que é ser um homem ou uma mulher nessas ruas de pedra, com cheiro de fossa, as 06:00 da manhã? Trinta dias correram. O túnel lentamente se expande. Já não apresenta sua forma circular, arredondada. Hoje o cão conseguiu me acompanhar. Fiz carinho na sua cabeça dura. Seus pelos cor de caramelo. O sol nasce na janela da sala. Produz uma luz elegante e acho isso agradável. Há dias que a atmosfera política tem tons de golpe. Formas carcomidas de massacre, crime social. Alguns de nós sentem o fardo com muito pesar. Outros apenas sentem. Talvez, diante de tantas certezas, fosse melhor apenas sentir. Sou eu dirigindo pela noite, estrada a fora, depois de mais um dia longo. Fumando. Gosto do espectro amarelo das luzes das ruas onde passo. As novas, de espectro branco, iluminam mais. Mas não são tão charmosas. A música alta e a fumaça densa dos cigarros de maconha incitam a reflexão. Triste. Nossa comunicação não funcionou. Eram mentes resistentes. Cansadas da rotina, apaixonadas por ela. Algo de passional que já conhecemos. Um radical disse: chega! Não foi suficiente. A rotina se agigantou. Coisas pequenas tornaram-se enormes blocos de pedra. Correntes. Trinta dias correram. Pequenas plantas num vaso de plástico. Singelas como devem ser. Alimentam nossa esperança: há mais dias a correr. Trinta outros virão.

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