Carlos era um homem solícito,
isto é inegável. Certamente uma herança da sua formação. Homem feito, não muito
velho, criado ao estilo dos freis (ou quase). Ocupava todo o seu dia com a arte
de lecionar. Aulas e mais aulas. Carcomido pela envolvente e quase inelutável
rotina.
Nada pessoal, não vou mentir
sobre o Carlos. Embora, confesso, aumentarei alguns fatos. Deixo à atenção do
leitor a percepção de tais exageros, ou não.
Vi muitas vezes o Carlos ir do
céu ao inferno. Deve ser coisa de professor. Eu tive alguns que não me deixaram
outro quadro. Enquanto a maioria dos professores atenuava as mazelas do
dia-a-dia da escola com conversas cheias de lamentações, ou também com uma
esperança cínica, mas às vezes quase suplicante, ou outras até bem verdadeiras,
Carlos estava lá, comendo suas frutas na mesa central da sala dos professores.
Convicto. Era até bem original. Cheio de manias. Não. Pensando bem, não. Na
verdade nada tinha de original, exceto as manias. Barba ao estilo romano.
Perfumado. Podia vê-lo em frente ao espelho se barbeando soberbamente todos os
dias e tentando se convencer de que vencera a filosofia, a dominava como uma
disciplina. Isto mesmo, como uma disciplina. Eu havia pegado o hábito de
observá-lo. Olhava o seu armário quando ele o abria para ali buscar uma prova,
ou mesmo a escova de dentes, e pensava: como pode ser tão organizado? Acho que
esta era a virtude do Carlos. É! Ele tinha esta virtude. Dobrava cuidadosamente
os comprovantes do ponto digital que a irmã havia instalado na escola, os
colocava dentro de um plástico, passava a mão direita em cima do pacote para
tirar os acidentes enquanto o segurava com a outra, dobrava o plástico
ritualmente, e os guardava no armário.
Nosso caro filósofo gralhava.
Quando não era correspondido não tinha papas na língua. Rasgava o verbo. Como
se fosse alguma espécie de necessidade extraterrena a aceitação do seu “bom
senso”. Freqüentemente, quando eu ficava diante de muito trabalho e pensava em
subtrair algumas horas do meu descanso ou do meu precioso ócio para deixar os
diários de classe todos devidamente preenchidos, eu pensava no Carlos. Refletia
se era desta forma que a rotina ia nos envolvendo. Envolvimento tão completo
que aproximava aquele momento em que o ambiente de trabalho se confunde com o
próprio trabalhador. O Carlos era assim – embora ele negasse, é claro –, sua
aparência era a da escola das irmãs. Tinha o hábito de lá – e peço desculpas ao
leitor pela minha limitada ironia. Evidentemente o Carlos não usava batina,
tinha uma opinião crítica sobre o uniforme da escola, achava que aquilo tudo
deixava os professores com um ar de operários, de trabalhadores de “chão de
fábrica”. Nestas horas, ele acertava sem querer. Mas definitivamente não usava
o hábito, tal qual às irmãs. Mandou fazer camisas brancas com o nome da escola
bordado no peito. Tudo para não usar o proletariado jaleco. O Carlos não era da
cidade, ou pelo menos assim declarava, embora prestasse valiosíssimos serviços
ao município ensinando a filosofia de Nietzsche, e elementos da psicanálise de
Jung há 8 anos. Na verdade seus olhos denunciavam que aquilo não passava de uma
desculpa, algo para aliviar a sua bigorna-consciência, pesada por ter se
rendido à rotina, se entregado a ela lentamente.
Na prática tudo não passava de um
ladrar meio de lado, com a voz embotada, mas cheia de raiva e a um fio de subir
na mesa, tirar o pau para fora e dizer: quero que isto tudo se foda! Bem lá no
fundo acho que esse era o meu desejo. Quando via o Carlos, olhava para as caras
dissimuladas das pedagogas, a beatitude das irmãs, a vista cansada daquela
escola autoritária, daquelas caras de alunos classe média, tão cegos em suas
vidas pudorosas, essa era a minha vontade. Gritar bem alto. Uma espécie de
terapêutica do grito.
Mas voltemos ao
Carlos, falar de mim pode parecer ridiculamente soberbo. Voltemos a ele, pois eu sou sempre suspeito, observador
privilegiado do processo. Também não pensem que tudo se resume ao Carlos. Ele
aqui é o hospedeiro de uma espécie de homem, um estrato da sociedade brasileira
do século XXI. Deste modo, este é também o relato da tragédia humana
transvestida de orgulho e autonomia, dos seres pensantes que intuem sobre o
mundo tanto quanto um provinciano sente o cheiro da cidade. Certos dias o
Carlos fechava a cara. Comia sua pera argentina com o olhar distante. Firme e
transbordando ódio. Se segurava, não explodia, aguentava firme e, assim que era
desafiado pela conversa fiada do professorado, exibia seu lamentável “filosofês”.
“Todos os dias estamos bem, só há alguns em que estamos mais reflexivos”.
Balela! Não podia era resistir à tentação de
exibir auto-controle mesmo nos momentos em que queria que tudo fosse pelos
ares. Muitas vezes eu o achava bipolar. Uns dias sorrindo um riso debochado,
outros introspectivo e cauteloso em não transparecer descontentamento com o
mundo. Comecei a pensar que se aproximar do Carlos era perigoso; sim, perigoso,
porque ele tinha a habilidade invejosa de estabelecer concorrência com quem quer
que fosse.
Certa manhã,
dessas comuns por aqui, isto é, frias e úmidas, pensei mais abertamente sobre
minha atitude voyer para com o
Carlos. Senti até um pouco de saudade, sua vida foi breve e, mais breve ainda o
tempo em que trabalhamos juntos. Aos pouco comecei a perceber que as lembranças
do Carlos na minha cabeça estavam cada vez mais confusas. Lembrava dele, mas
ele tinha a minha fisionomia, e, de repente, era eu as 07:15 dobrando
cuidadosamente o comprovante do ponto digital em um saquinho plástico.
Triste fim teve o Carlos logo após vir à tona na pequena cidade o caso do seu
envolvimento com meninos e meninas e os corpos das irmãs. Já havia presenciado
situações onde os alunos o chamavam de "corvo". Mas ninguém imaginava
que ele seria capaz de praticar necrofilia com as irmãs.
A bem da
verdade, ninguém foi capaz de estabelecer relações entre a morte das irmãs e o
professor de filosofia. Ele era insuspeito. Gozava de uma pose respeitosa,
sempre alinhado, no horário, com os livros todos preenchidos. Quando a verdade
escandalizou a antiga escola das irmãs, não foi difícil imaginar o fim daquele
pobre diabo. Se suicidou no último andar da escola com uma faixa onde se podia
ler: Morte aos partidos, aos políticos, aos escarnecedores do respeito e da
ética, da moral e dos bons costumes!
Achei algum
tipo de ironia naquilo. Que o defunto era homem de respeito e que odiava os
partidos eu não duvido, mas que bons costumes há em matar e trepar com o corpo
das irmãs? Arderia no inferno e ladearia pelo limbo.
Nenhum comentário:
Postar um comentário