Alguns sentimentos – talvez todos – apresentam algo de
material e concreto.
Aqui, onde há tolice e distração luminosa, a solidez deles
nos espanta.
Dói no peito como a volta ao mundo dos vivos depois de
noites intensas pelo caminho das piores sombras.
Traídos pela concretude da vaidade, os homens caminham entre
as pedras, que apenas são.
Faz tempo.
Quando percebi o tempo correu. Também corri, não quis
olhá-lo, ao meu lado, enquanto minhas pernas ganhavam velocidade e eu
concentrava e fixava o olhar para frente.
Desviei.
Foi um olhar duro.
Fitei seu pares de olhos profundos e meu coração quase
explodiu.
A ansiedade também se fez solida.
Uma bigorna no peito.
Abafado.
Parecia o fim antecipado. Que face assustadora.
Medo.
O samba antigo na voz daquela mulher sofrida aumentou a
minha dor.
Infinitas vezes.
Precisei parar...
Coisas e sensações foram atiradas em mim. Na mesma
velocidade e força que eu me atirei em direção a elas.
Percebi o frenesi que tomou a todos na areia da praia sob a
chuva daquela noite.
Todos queriam participar da orgia com a vaidade.
Percebiam a sua traição, mas tinha algo de verdadeiro e isto
bastava.
Foi suficiente.
Havia algo de capilar nas gotas de chuva cuspidas contra
nós.
Não parecia o momento da redenção.
Mas do castigo que de tão profundo parecia gozo.
Nada que existia ali por toda a extensão do
tempo merecia a presença de pessoas razoáveis.
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