Esta noite o ajuste me desajustou.
Me fez dormir mais tarde.
Quando vi, a sonolência (cada vez mais precária) que
acometia meu corpo ainda jovem, montou cavalo a galope de volta para casa.
Fiquei sozinho diante do televisor e do prato de feijão
preto.
Senti uma tristeza no futuro do presente, composto.
Composto era o que acontecia a matéria orgânica que se
modificava enterrada entre o canil e a velha e torta casinha de madeira,
edifício dos ratos.
Votavam ao arrepio. Dissimulavam oposição.
O espetáculo, ao vivo nas redes sociais, não deixava o ar
pesado do passado sufocar a atmosfera de repetição dos fatos, o mimetismo era sui generis.
Os trabalhadores resistem. Nada muito teórico.
Apenas resistem. Do seu modo, até bastante popular e com
certo romantismo.
Pelos maridos que eu mandei para fora de casa. Pelo
companheirismo que encontro nos colegas. Pelo mimetismo midiático. Pelo
romantismo teórico. Pela organização sindical.
Quase todos estavam convictos de que sabiam o que acontecia.
Tudo era um misto de momentos de lucidez e entusiasmo, de
depressão e estado de consciência alterada.
Eu tentava me lembrar de que não sabia nada. O choro dos
yanomamis naquele momento se fez ecoar.
Ensurdeceu os gritos teatrais da pequena política.
A floresta morre.
A floresta morre.
Entre a estiagem daquele outono atípico, podia-se ver a lua
quase tímida no céu. Sem estrelas.
Havia pessoas à deriva no Pacífico. Negros chegavam
clandestinamente pelo Acre. As putas corriam atrás dos garimpeiros no Amapá, às
margens do Oiapoque. Travestis fungavam seus longos e pesados narizes cheios de
coca.
Vimos dizer adeus, dizia o índio.
Sonhei com a loucura, urinei na cama. Perdi o sono. Antes da
transa quente e molhada, mandei embora outro homem.
As trabalhadoras resistem.
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